sábado, 5 de abril de 2008

Conversa de confessionário



Me desculpe Vossa Santidade pelo que vou lhe dizer...
Senhor Papa, sempre fui um homem de bem e desde menino lutei pela vida. Minha mãe conta que naquela época uma velha senhora, enrolada num manto negro e com uma foice na mão, tinha saído das profundezas do inferno para pegar meninos pelos pés e levá-los ao diabo. Diz ela, que eu estivera doente e essa senhora quase me levou, não fosse a dedicação da família. Desculpe a ousadia, mas posso lhe garantir, sou católico desde pequeno, batizado na paróquia Sagrada Família, lá pras bandas da zona norte, já ouviu falar?
De uns tempos pra cá, tenho acompanhado pela televisão a polêmica sobre a liberação no Brasil das pesquisas de células-tronco embrionárias. A igreja é contrária a essa liberação mesmo sabendo que os embriões humanos congelados, não utilizados, acabarão com o tempo sendo descartados e destruídos. Se é assim, por que a igreja não apóia as pesquisas que representam a esperança de cura de milhões de pessoas? Por acaso, não estamos dando passos de caranguejo, atrasando esse tipo de pesquisa? Até quando vamos permanecer nesse mangue brejeiro, entravando avanços no Brasil? Talvez, Vossa Santidade com sua sabedoria explicasse melhor o assunto. Desculpe a ignorância, desse moço que se criou brincando com saúva, mas a postura da igreja não é  teimosia? Também não quero ser abusado, mas posso lhe chamar de Bentinho? Como pessoa simples, tenho dificuldade em pronunciar números romanos, repletos de "Xis" e "Is" em maiúsculos. Outra pergunta Santo Padre, se não for abuso de minha parte, essa atitude conservadora da igreja não foi responsável pela grande carnificina nos tempos da inquisição? Um professor, certa feita, contou a nossa classe que penduravam homossexuais de cabeça para baixo para depois serrá-los entre as pernas; enquanto supostas bruxas eram torturadas com a introdução de ferros em brasa em suas delicadezas, conclamando no ato o nome de Deus, antes de serem queimadas vivas em fogueiras, nos espetáculos em praça pública. Sou filho de dono Maria e me criei no terreiro comendo mingau de fubá. Não repare não o meu palavreado simples. Se os princípios da igreja são corretos, peço desculpa.
Talvez os padres quando ficam adoentados, não procuram o hospital para usufruir os recursos desenvolvidos pela “perversa” ciência que ataca a vida. Acredito que os padres tomem apenas sopinha de mocotó, antes de rezar, rezar e rezar para Deus curar todos os males. - Não é verdade, senhor Papa? - Espero que Deus não me castigue por essa heresia. Meu nome é Felisberto e moro lá pras bandas da zona leste...



terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Meninas de cabelos "abaranjados"


Na infância - esse momento especial - os sonhos e a imaginação comandam os sentidos. Nessa época, as preocupações são poucas, a não ser aquelas motivadas pelas peraltices cotidianas como o banho de chuva não autorizado e a mãe a esperar em casa com a chinela na mão. No mais, tudo é aventura. Lembro-me dos meninos serpenteando as estreitas trilhas rumo ao banho no lago, das pescarias de muçuns nos igarapés, ou até mesmo da degustação do arroz com pardais à beira do mato.
Mas a lembrança mais marcante, sem dúvida, é a das meninas de cabelos “abaranjados” (assim as chamava devido à coloração alaranjada dos fios capilares), as novas moradoras do bairro. De origem germânica, tinham olhos azuis e faces alvas enfeitadas por sardas. A presença delas no terreiro fascinava a garotada. Pareciam as ninfas do bosque do deus Pan a brincar com os bambolês, pulando amarelinha ou jogando cinco marias. Apaixonados, alguns até abandonaram certos hábitos comuns para idade, a fim de conquistar a condição de homens crescidos perante as pequenas musas. Muitos não fizeram mais xixi na cama, enquanto outros se exibiam no grupo, estufavam o peito, mostravam imperceptíveis fios de bigode.
No auge dos meus cinco anos, também decidi ser adulto para tentar chamar a atenção da menina menor. Foi um esforço difícil. Uma vez ou outra, corria para casa. Apenas uns minutos, mas o suficiente para retornar ao terreiro e observá-las, e essa ação passou a se repetir, várias vezes. Minha mãe ficou intrigada seguindo-me até o quarto. Porém, nada encontrou. Desapareci sem deixar nenhum rastro. De repente, num passe de mágica, surgia apressado no corredor.
Curiosa, decidiu verificar o que acontecia e escondeu-se atrás da porta. Ao entrar novamente no quarto para cumprir o ritual, o mistério se desfez. Surpresa, ela abriu o guarda-roupa e flagrou-me chupando bico. Que grande susto levei! Envergonhado chorei muito e ela, com aquele sorriso macio de mãe, prometeu não revelar o meu segredo.
Por algum tempo permaneci naquela rotina até a família das meninas de cabelos “abaranjados” mudar de cidade. Descobri, então, o significado da palavra saudade. No alpendre, entre soluços e lágrimas, a segurar um copo de leite com cacau, lembrava daqueles brilhantes olhos azuis sorrindo para mim.
Cristiano Devicari

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Receita de bolo de fubá

Durante a colheita de grãos, observei imensos milharais nas coxilhas numa rápida passagem pelo interior. A cena dos caminhões repletos do cereal cor de ouro, a transitar nas estradas de terra vermelha, me fez lembrar algo da infância: o saboroso bolo de fubá de dona Carolina. Era uma iguaria que impregnava a varanda da casa com o doce aroma da goiabada colocada sobre a cobertura da massa. Nos sábados, quando a nona vestia seu avental azul, antes de ir ao fogão à lenha, os netos já sabiam: naquela tarde haveria bolo de fubá.

Para o preparo da receita utilizavam-se os seguintes ingredientes: quatro ovos; duas xícaras de chá de açúcar; duas xícaras de farinha de trigo; uma xícara de chá de fubá; três colheres de sopa de banha de porco; uma xícara de chá de leite; uma xícara de goiabada; e quatro colheres de chá de fermento. Uma receita comum vista sob o olhar de um cozinheiro experiente. No entanto, aquela senhora trazia um segredo de família, dando um toque especial ao prato. Primeiro a nona batia as claras em neve, acrescentava o açúcar e seguia batendo até misturar os outros ingredientes, inclusive alguns temperos secretos. Por último, o fermento, batendo por mais um minuto. Depois ela untava a forma com banha de porco para receber a massa e em seguida ia tudo para o forno, por aproximadamente 30 minutos. E no final a goiabada colocada sobre o doce ainda quente.
Certas vezes, algum neto, ansioso, tentava provar a massa com o indicador. A nona imediatamente repreendia mandando o afobado esperar. Nessas ocasiões, ela nos ensinava regras de conduta. Após a conversa ao pé do ouvido, a meninada se esbaldava naquele manjar, enquanto aquela senhora sorria vendo a alegria dos pequenos. Essa é uma marca da infância que o tempo não consegue apagar.
Transitando pelos pavilhões da vida, conheci pessoas semelhantes à dona Carolina, doces e amáveis, que fizeram da infância de muitas crianças, dias inesquecíveis. Nessas andanças, também deparei-me com seres amargos, detentores de bens e ao mesmo tempo desprovidos de educação e classe, virtudes que vêm de berço. De almas pequenas e egos gigantes, eles ignoram uma palavra tão simples e fraterna do vocabulário conhecida como gentileza.
Com seus olhos míopes, ao invés de observarem o movimento telúrico dos milharais, contemplam os gélidos e obscuros monumentos que retratam no bronze suas distorcidas auto-imagens. Certamente, na infância, não devem ter comido bolo de milho com cobertura de goiabada.

Cristiano Devicari

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Pequeno Giba: o dono da bola

Desde cedo, o pequeno Giba se mostrou autoritário.
- Se eu não for o centroavante, ninguém joga! A bola é minha e só participa da pelada quem eu escolher! Entendido!? – exclamava com autoridade aquele menino feio. A gurizada, sem alternativa, acabava aceitando a imposição. Contrariar o dono da bola significaria não ter pelota para jogar. Isso era uma tragédia aos meninos da Vila Hortência, pois o futebol representava o único divertimento nos dias de sol quente.
A permanente submissão aos caprichos de Giba, porém, começou a encher a paciência da turma. O moleque a cada dia ficava mais ousado.
- Zé Beiço, deu pra ti! De hoje em diante não joga mais. Aqui não tem lugar pra goleirinho metido a besta, que defende todas! – sentenciou inconformado, por não conseguir marcar gol no adversário.
Em outra oportunidade Giba impediu o Neco de participar da partida, porque este não lhe dera, de forma “espontânea”, a figurinha de Rivelino.
Giba ditava estranhas regras. O maior temor dos meninos era quando ele abria vaga na linha para a sardenta Chiquinha. Como namoradinha do dono da bola tinha seus privilégios e ai daquele que ousasse driblar ou defender a bola chutada pela guria. Nessas ocasiões, o goleiro precisava dar um jeito de a pelota entrar no gol, para satisfazer o desejo do pirralho. Caso contrário, o “infrator” saía da partida.
Dito Papagaio, o mais fiel escudeiro de Giba, atuava como gandula particular, não importando se a bola estilhaçasse a vidraça dos prédios da vizinhança. Acontecido o incidente, lá estava Dito para ouvir os reclames e palavrões do morador. Dito Papagaio tinha esse apelido porque repetia tudo o que Giba falava, faltando apenas o currupaco. Chegava a ser cômico ouvi-lo: - Eu determino que seja desse jeito - dizia Giba – Eu determino que seja desse jeito – repetia Dito. Os meninos da Vila Pippi até lhe apelidaram de gravadorzinho; alcunha que entristecia o piazito.
Nas noites de luar, a garotada saia à caça de vaga-lumes. No momento da partilha, Giba sempre ficava com os insetos maiores e mais brilhantes, sem qualquer contestação. Os garotos, submissos e calados, tinham receio de uma possível retaliação por parte dos fiéis escudeiros de Giba: Braguinha, Gigi e Dito.
Certo dia, resolvi contestar aqueles absurdos. Por possuir uma personalidade pequena, o guri me afastou da turma. Apesar da atitude irreflexiva, lhe desejei boa sorte. Conhecê-lo foi importante; suas decisões tortas me serviram como aprendizado.
Giba cresceu, mas as ações mesquinhas permaneceram, fazendo com que ele, a cada dia, aumentasse sua pequenez diante dos outros. Talvez algum dia aprenda que a liderança é algo espontâneo e não se conquista com o uso da força. Ao déspota a vida reserva o isolamento, porque pouco a pouco as pessoas caem na real e abandonam o barco, deixando o “Napoleão” solitário, às traças, a contar moscas.

Cristiano Devicari

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Tem formiga branca no açúcar

Minha nona ao desconfiar de alguma coisa sempre dizia: - Tem formiga branca no açúcar! A expressão era incompreensível para um menino de apenas seis anos. Ao crescer observando o cotidiano de uma sociedade de moedas a estipular valores e conceitos, entendi tudo: certos comportamentos humanos assemelham-se aos das formigas brancas que, de pote em pote, visitam muitos açucareiros até esvaziá-los. Algumas ingênuas pela inexperiência da vida; outras perversas por natureza.
Geralmente, à noite, disfarçada em becas e perfumarias, essa criatura alva costuma deixar o formigueiro da periferia para observar vitrines de grifes, antes de atacar os fartos açucareiros importados com rodas de magnésio e vidros fumês. A regra é única: com açúcar e sem afeto, contrariando a canção de Chico Buarque.

Um amigo, certa vez, cruzou no caminho da mais perversa delas. Ousada, a criatura usava as armas disponíveis para nutrir-se até o último cristal do pote, ao passo que o menino, fascinado, contemplava o remexer dos quadris da dita. Miúda e pequena revestia-se de cascas arbóreas ou determinadas espécies de plantas trepadeiras para ocultar o imenso vazio interior; repleto de indiferença. Nela, o açúcar das doces palavras proferidas num leito de gozo transmutava-se num ácido e azedo vinagre, após um infrutífero telefonema no celular. Enquanto isso do outro lado da linha, lágrimas. Ao mesmo tempo bela; horrorosamente fria. Talentosa na matemática aprendeu desde cedo com a família a contar vintém e a calcular a direção do próximo banquete.
Nos encontros e desencontros da vida, as pessoas acabam recebendo a inesperada visita dessa espécie, que entra sem pedir licença e rouba os cristais da alma, deixando um imenso vazio em sua presa.
Encantadora formiga branca, com seu apetite insaciável não percebe o destino fatídico: acabará submersa numa xícara de chá, enquanto outras gerações de formiguinhas seguem em direção aos açucareiros e meninos choram pela falta de açúcar no café da manhã.
Cristiano Devicari

domingo, 30 de setembro de 2007

Lembranças da tempestade

Certa vez caiu um temporal na cidade. Lembro-me até hoje. Nuvens negras agrediam as casas lançando pedras nos telhados. Era a natureza mostrando vigor e rebeldia, com a chuva de granizo, parecendo vingar-se do homem. Talvez, um acerto de contas pela violação praticada contra o meio ambiente. O dia transformou-se em noite e as lamuriosas nuvens entoaram gemidos em forma de raios e trovões. Enquanto no arroio Itaquarinchim, a lama trazida das lavouras avermelhava as águas que mais pareciam sangue. A artéria hídrica explodia em colapso projetando água em todas as direções, a encobrir árvores e taperas, na vastidão das estâncias missioneiras.O turbilhão líquido não afetava apenas a vida dos homens, mas também o mundo dos pequenos seres. A fêmea do gambá, com filhotes presos ao ventre, fugia da correnteza que invadira a sua toca; e os ratos eram arrastados pelas águas sujas dos esgotos. Na extensa coxilha, o quero-quero, assustado, procurava em vão abrigo no campo encharcado. Rios invadiram açudes e pastagens, possibilitando aos peixes o deslocamento frenético rumo à liberdade, na lâmina d’água. Nos galhos ocos dos cinamomos as cobras e os pássaros se protegiam da chuva e do vento. E no tronco do ipê amarelo, centopéias e formigas escondiam-se entre as cascas para escapar da morte. Ainda observei o pequeno jataí sobrevoando o redemoinho do saci próximo aos bambuzais, e a moça bonita abrigando-se do vento embaixo da escadaria de um velho sobrado.
A tempestade vista através da janela trouxe tantas lembranças e inquietudes. A escuridão engoliu a luz na manhã chuvosa desta cidade triste, trazendo mais cedo a noite e a solidão.
Cristiano Devicari

O menino do espelho

Os noticiários de jornais destacam o aumento da violência contra as crianças no seio da família – ato extremamente covarde, devido à força desproporcional que o adulto projeta no frágil corpo infantil. Quando leio essas notícias me vem à lembrança alguém que conheci.
Havia um garotinho que gostava de brincar em frente ao espelho, onde tinha um amigo especial: o pequeno Oberã – o menino do colar de xícaras. Nas horas difíceis ele sempre podia contar com a sua companhia, revelando seus segredos, alegrias e tristezas do dia-a-dia. Oberã, por sua vez, também fazia confissões, falando de seu grande sonho: libertar-se do espelho, poder saltitar nas calçadas, subir em árvores, tomar banho de chuva... Às vezes, tornava-se cômico vê-lo repetir o que o outro fazia: gestos, gracejos e palavras.
Certo dia, em lágrimas, revelou estar cansado do castigo paterno. Cada xícara quebrada no café da manhã transformava-se em mais um requintado adorno no pesado colar de cacos que trazia no pescoço. Pela transparente vidraça, as crianças, às gargalhadas, admiravam o brilho da afiada porcelana, sem entender a verdadeira natureza daquele enfeite. Nessas ocasiões, o menino escondia-se embaixo da cama procurando refúgio, envergonhado.
Mesmo franzino resistia ao “afago” do chicote a desenhar na sua pele diferentes figuras: pareciam redundantes círculos, dragões, serpentes, ardentes labaredas... Sempre havia uma dolorosa novidade nos caminhos traçados pelo pai na epiderme de Oberã.
O tempo levou Oberã... mas ficaram ensinamentos importantes: diante das mazelas impostas pelo cotidiano é preciso ter esperança de uma vida melhor, sem colar de xícaras, chicotes e chacotas; com manhã de café, pão e mel sobre a mesa; e um sorriso de pai dando bom-dia. A imagem daquele menino e seu brilhante colar de xícaras continua a girar no compasso do pensamento.
As cicatrizes no peito me trazem à lembrança o pequeno Oberã, hoje perdido dentro do espelho em algum lugar do passado.

Cristiano Devicari