
Me desculpe Vossa Santidade pelo que vou lhe dizer...
Senhor Papa, sempre fui um homem de bem e desde menino lutei pela vida. Minha mãe conta que naquela época uma velha senhora, enrolada num manto negro e com uma foice na mão, tinha saído das profundezas do inferno para pegar meninos pelos pés e levá-los ao diabo. Diz ela, que eu estivera doente e essa senhora quase me levou, não fosse a dedicação da família. Desculpe a ousadia, mas posso lhe garantir, sou católico desde pequeno, batizado na paróquia Sagrada Família, lá pras bandas da zona norte, já ouviu falar?
De uns tempos pra cá, tenho acompanhado pela televisão a polêmica sobre a liberação no Brasil das pesquisas de células-tronco embrionárias. A igreja é contrária a essa liberação mesmo sabendo que os embriões humanos congelados, não utilizados, acabarão com o tempo sendo descartados e destruídos. Se é assim, por que a igreja não apóia as pesquisas que representam a esperança de cura de milhões de pessoas? Por acaso, não estamos dando passos de caranguejo, atrasando esse tipo de pesquisa? Até quando vamos permanecer nesse mangue brejeiro, entravando avanços no Brasil? Talvez, Vossa Santidade com sua sabedoria explicasse melhor o assunto. Desculpe a ignorância, desse moço que se criou brincando com saúva, mas a postura da igreja não é teimosia? Também não quero ser abusado, mas posso lhe chamar de Bentinho? Como pessoa simples, tenho dificuldade em pronunciar números romanos, repletos de "Xis" e "Is" em maiúsculos. Outra pergunta Santo Padre, se não for abuso de minha parte, essa atitude conservadora da igreja não foi responsável pela grande carnificina nos tempos da inquisição? Um professor, certa feita, contou a nossa classe que penduravam homossexuais de cabeça para baixo para depois serrá-los entre as pernas; enquanto supostas bruxas eram torturadas com a introdução de ferros em brasa em suas delicadezas, conclamando no ato o nome de Deus, antes de serem queimadas vivas em fogueiras, nos espetáculos em praça pública. Sou filho de dono Maria e me criei no terreiro comendo mingau de fubá. Não repare não o meu palavreado simples. Se os princípios da igreja são corretos, peço desculpa.
Talvez os padres quando ficam adoentados, não procuram o hospital para usufruir os recursos desenvolvidos pela “perversa” ciência que ataca a vida. Acredito que os padres tomem apenas sopinha de mocotó, antes de rezar, rezar e rezar para Deus curar todos os males. - Não é verdade, senhor Papa? - Espero que Deus não me castigue por essa heresia. Meu nome é Felisberto e moro lá pras bandas da zona leste...





